Como Migrar da Da Sociedade de Desempenho à Sociedade Iluminada
Visto que falta, às informações, a solidez do ser, pois estamos muito bem informados mas desorientados, analisaremos o texto publicado no Instagram - a crítica de Byung-Chul Han e um de seus pensamentos publicado no livro “A crise da narração”; onde ele mostra a importância da narração ao invés de narrativas.
Consideraremos o cristianismo como fundamento para reflexão - associaremos com a realidade que o império romano vivia no século IV - a fragilização provocada por crises morais daquela sociedade e que só a Igreja pode reverter ao longo da Idade Média e consequente formação do Ocidente até nossos dias onde novamente a sociedade se dissolve por afastar-se dos princípios e valores que formaram a Europa e Ocidente.
Em 2025 celebrou-se 1700 anos do Concílio de Niceia onde o magistério da igreja cristã (318 bispos reunidos) discutiu o tema da trindade e especialmente a Pessoa do Filho de Deus. Uma das afirmações desse Concílio: «Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro». Assim, o Concílio retoma a metáfora bíblica da luz: «Deus é luz» (1 Jo 1, 5; cf. Jo 1, 4-5). Como a luz que irradia e comunica a si mesma sem se extinguir, também o Filho é o reflexo (apaugasma) da glória de Deus e a imagem (character) do seu ser (hipóstase) (cf. Heb 1, 3; 2 Cor 4, 4). O Filho encarnado, Jesus, é, portanto, a luz do mundo e da vida (cf. Jo 8, 12). Através do batismo, os olhos do nosso coração são iluminados (cf. Ef 1, 18), para que também nós possamos ser luz no mundo (cf. Mt 5, 14). Jesus Cristo, que como Deus e Homem redime a humanidade, restitue dignidade humana e dá sentido e propósito à sociedade.
+++
Essas premissas serão a base da nossa articulação de ideias! A comparação entre a crítica de Byung-Chul Han à sociedade de desempenho e a crise moral do Império Romano, tendo o Cristianismo como fundamento e solução, que é profundamente perspicaz.
A seguir, integramos:
• a crítica de Byung-Chul Han (sociedade do desempenho);
• a importância da narração (e não “narrativas”);
• o fundamento cristão como eixo interpretativo da crise atual;
• o paralelo histórico com o século IV, o Concílio de Niceia e a reconstrução do Ocidente;
• a luz de Cristo como forma de restituir sentido, dignidade e orientação.
⸻
**A NARRAÇÃO QUE SALVA:
**Entre a Sociedade do Desempenho e a Luz de Cristo**
Vivemos em uma época em que a informação é abundante, mas a orientação é rara. Navegamos em mares agitados de dados, estímulos, discursos e “narrativas” — como chamamos hoje aos enredos fragmentados que cada grupo fabrica para afirmar sua própria verdade. No entanto, o que falta ao homem contemporâneo não são versões do mundo, mas um sentido que unifique a realidade, uma história que ofereça profundidade, coerência e finalidade.
É justamente aqui que a análise de Byung-Chul Han torna-se preciosa: passamos da antiga sociedade disciplinar para a sociedade do desempenho, onde já não existe um opressor externo dizendo “não podes”, mas um excesso de “sim, tu podes” que nos leva à autoexploração voluntária. Vivemos saturados de possibilidades, tarefas, metas e comparações. Colapsamos não por proibição, mas por exaustão.
Esta crise não é apenas psicológica.
É antropológica.
É espiritual.
O ser humano moderno tem informações, mas não tem um centro.
Tem autonomia, mas não sabe para onde ir.
Tem liberdade, mas não sabe o que escolher.
E quando o “eu” se torna o único narrador, surgem as patologias descritas por Han: depressão, burnout, transtornos da atenção e da personalidade. São sintomas de um ser que perdeu sua narratividade interior, sua capacidade de compreender-se numa história maior que a própria vontade e o próprio desempenho.
⸻
Narração, não narrativas: a diferença que sustenta a alma
Han sugere que nossa cultura está presa a “narrativas” — discursos frágeis, voláteis, autorreferenciais, produzidos em série e descartáveis conforme o interesse do momento. Narrativas são artificiais: servem para escolher um lado, para se autopromover, para construir identidades temporárias.
A narração, ao contrário, é o enraizamento do eu numa história maior, contínua, significativa.
É a tradição, é o fio da memória, é aquilo que dá ao homem uma posição no cosmos e um rumo para existir.
O cristianismo é, antes de tudo, narração — a História da Salvação.
Não é um discurso entre outros:
é uma história verdadeira que ilumina todas as outras histórias.
⸻
O Século IV: quando o mundo se dissolvia — e a luz reacendeu o Ocidente
O paralelo histórico é inevitável. No século IV, o Império Romano enfrentava uma crise moral intensa: decadência dos costumes, fragmentação política, perda de identidade, fuga das responsabilidades, violência, saturação de prazeres e colapso das virtudes públicas. O império, saturado de bens, riqueza e estímulos — como nós hoje — estava sem sentido, sem finalidade e sem alma.
Foi justamente neste cenário que surgiu o Concílio de Niceia (325), cuja celebração de 1700 anos ocorreu em 2025.
Niceia não foi apenas uma reunião doutrinária; foi um ato de reconstrução civilizacional. Ao proclamar que Cristo é:
“Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro”,
os padres conciliares reafirmaram o centro absoluto da narração cristã:
Deus irrompeu no tempo, fez-se homem, ilumina o mundo e dá sentido à existência humana.
A metáfora da luz — retomada de 1Jo 1,5; Hb 1,3; Jo 8,12 — não é poética apenas: é ontológica. Ela diz que só a luz pode vencer a desorientação.
O império que se dissolvia reencontrou sua base não em reformas políticas, mas em uma verdade que ilumina a mente e o coração.
Deste ato nasceram:
• a cristandade medieval,
• a cultura europeia,
• as catedrais,
• as universidades,
• o direito natural,
• a valorização da pessoa,
• a noção de dignidade humana,
• a própria ideia de Europa.
A narração cristã forjou o Ocidente.
⸻
O tempo presente: o retorno da dissolução
Hoje, 1700 anos depois, vivemos crise semelhante — mas espiritual e cultural.
A Europa e o Ocidente secularizados afastam-se da narração que lhes deu forma.
Abandonam a luz e tentam viver apenas de narrativas identitárias, políticas, tecnológicas, psicológicas — fragmentos soltos incapazes de sustentar uma civilização.
O resultado?
Sociedade do desempenho.
Autoexigência.
Depressão.
Colapso moral.
Perda de vínculos.
Desaparecimento do bem comum.
Esvaecimento da esperança.
Sem Deus, sobra apenas ruído.
Sem Cristo, não existe orientação.
Sem luz, a cultura retorna à confusão primitiva.
⸻
A Luz de Cristo: uma narração que orienta e cura
O cristianismo recorda que:
• O Filho é a luz que irradia sem se extinguir (Hb 1,3).
• No Batismo, os olhos do coração são iluminados (Ef 1,18).
• O cristão é chamado a ser luz no mundo (Mt 5,14).
O cristianismo devolve ao homem:
• o sentido (de onde vim, por que existo, para onde vou);
• a identidade (sou criado e amado por Deus);
• a verdade (a realidade não é construída, é revelada);
• a direção (a vida tem um propósito);
• a esperança (o mal não tem a última palavra).
É esta luz que, por séculos, sustentou a civilização.
E é esta luz que precisa ser novamente acesa no meio da confusão contemporânea.
⸻
Voltar à narração que salva
Byung-Chul Han descreve a sociedade do cansaço, mas oferece apenas diagnóstico.
O cristianismo oferece cura.
Voltar à narração cristã — não a narrativas artificiais — é recuperar:
• a solidez do ser diante do excesso de informações,
• a orientação interior diante da confusão cultural,
• a esperança diante do desempenho exaustivo,
• a verdade diante da fragmentação digital,
• a luz diante da escuridão espiritual.
A celebração dos 1700 anos de Niceia não é apenas memória.
É um chamado.
É um convite.
É uma convocação para que o Ocidente reencontre a luz que o gerou.
Porque sem Cristo, o mundo cansa.
Com Cristo, o mundo respira.
E só a narração cristã devolve ao homem o que ele perdeu:
a verdade que ilumina e o sentido que salva.
⸻
**Conclusão – Da Sociedade de Desempenho à Sociedade Iluminada:
A Narração Cristã como Caminho de Divinização e Verdadeira Humanização**
Ao final de toda análise — cultural, espiritual, histórica e antropológica — torna-se evidente que a crise atual do Ocidente não é meramente funcional ou psicológica: é uma crise ontológica. O homem moderno, projetado na lógica do desempenho e da autossuficiência, perdeu aquilo que o fazia sólido: não apenas uma ética, mas uma Narração do ser, uma verdade que lhe desse origem, sentido e finalidade.
No coração desta crise, ressurge com esplendor a verdade que a fé cristã sustenta desde o início: o ser humano não é apenas restaurado, mas elevado; não apenas perdoado, mas divinizado.
Como afirma a Escritura:
“Tornou-nos participantes da sua natureza divina” (2Pe 1,4).
E a Tradição ecoa:
A divinização é a verdadeira humanização.
Pois o homem só se compreende totalmente quando se reconhece unido Àquele que o criou “de forma maravilhosa” e que, de forma ainda mais admirável, o chama à comunhão consigo.
Aqui se cumpre o princípio agostiniano que resume toda antropologia cristã:
Deus enim solus satiat — só Deus satisfaz.
Nenhum projeto humano, nenhum desempenho, nenhuma otimização infinita pode saciar o desejo infinito do coração humano.
O Filho de Deus fez-se nosso irmão justamente para redimir esta inquietação e transformá-la em caminho para a eternidade.
⸻
Da Sociedade de Desempenho à Sociedade Iluminada
A reconstrução do Ocidente passa não por políticas públicas, ideologias pedagógicas ou reformas técnicas, mas pela recuperação da Luz de Niceia, a Luz da Verdade que esclarece todas as realidades humanas.
Uma sociedade iluminada — no sentido cristão — é aquela que:
• afirma a dignidade recebida, e não conquistada;
• funda a liberdade no Bem, e não na autoexploração;
• compreende o sofrimento à luz da redenção;
• entende a educação como formação integral da pessoa, e não mera capacitação funcional;
• percebe a vida como vocação, não como projeto de performance.
Esta é a única antropologia capaz de curar a sociedade do cansaço e reconstruir a cultura.
⸻
O Credo de Nicéia convida-nos, então, a um exame de consciência. O que significa Deus para mim e como testemunho a minha fé n’Ele? O único e verdadeiro Deus é realmente o Senhor da vida, ou existem ídolos mais importantes do que Deus e os seus mandamentos? Deus é para mim o Deus vivo, próximo em todas as situações, o Pai a quem me dirijo com confiança filial? É o Criador a quem devo tudo o que sou e tenho, cujos vestígios posso encontrar em cada criatura? Estou disposto a partilhar os bens da terra, que pertencem a todos, de forma justa e equitativa? Como trato a criação, que é obra das suas mãos? Faço uso dela com reverência e gratidão, ou exploro-a, destruo-a, em vez de a guardar e cultivar como casa comum da humanidade?
⸻
**Conclusão Geral:
**A Narração Cristã como o Único Caminho de Solidez, Esperança e Verdadeira Humanização**
A sociedade do desempenho desumaniza porque fragmenta.
A sociedade iluminada humaniza porque integra.
A “solução” para Han não está em reduzir a carga de performance, mas em redescobrir a Narração que ilumina o ser:
• Cristo como Luz;
• o homem como imagem divinizável;
• a vida como vocação eterna;
• a comunidade como lugar de caridade;
• o sofrimento como possibilidade de redenção;
• a dignidade como dom;
• a história como peregrinação para Deus.
No fundo, a crise contemporânea é uma crise de fundamento.
E só a Luz que brota de Cristo, reconhecida em Niceia e vivida ao longo da tradição cristã, pode devolver ao homem aquilo que ele perdeu:
• solidez do ser,
• sentido de vida,
• esperança contra o colapso,
• participação na própria vida de Deus.
A verdadeira liberdade não está no “sim, eu posso tudo”, mas no
“faça-se em mim segundo a tua Palavra”.
E a verdadeira humanidade não está na otimização sem fim, mas na
divinização que realiza o coração humano, criado para o Infinito.
⸻


Comentários
Postar um comentário